EU QUIS SER POETA E SOU OPTOMETRISTA

EU QUIS SER POETA E SOU OPTOMETRISTA

27
DEZ
2020

A optometria é uma jovem profissão com cerca de 100 anos de existência. Numa representação interdisciplinar e simplicista, o optometrista exerce o seu conhecimento no campo da biofísica. A preparação académica confere-lhe competências para avaliar quantitativa e qualitativamente as capacidades visuais dos seus clientes. Dessa avaliação poderá resultar uma prescrição para treino visual, óculos, lentes de contacto, ou encaminhamento para um médico especialista quando na presença de uma possível patologia.

Como a maioria dos profissionais nesta área, a minha descoberta da optometria em nada teve a ver com o sentido de vocação inata. Há 36 anos, a permeabilidade à entrada de novos profissionais no setor da ótica era restrita. Encontram-se as explicações no enquadramento político, sociocultural e económico da época. Um país em profunda transformação e expansão, ainda muito ancorado à tradição. Observando a atual geração de óticos-optometristas entre os 45 e os 60 anos, grande parte destes terá ligações familiares, diretas ou indiretas, ao seu primeiro empregador no setor. A exceção terá sido um ou outro empregado mais ambicioso e empreendedor que, através da formação, procurou aumentar os conhecimentos e melhorar as condições económicas.

Cedo aprendemos todos a compreender e a alinhar com um conjunto de regras sociais. Diria que existem dois grandes períodos no nosso desempenho social. Um primeiro período, o da escola, em que somos puros recetáculos de um conjunto de regras socioculturais e de conhecimento, aonde nos é permitida a construção das várias dinâmicas de interação de grupo. O segundo período, o da prova, que consiste na devolução e na partilha dos valores e conhecimentos, o trabalho. Algures pelo meio, encontra-se o momento em que nos é permitida a escolha de uma profissão. Um desafio muito mais complexo do que à primeira vista parece ser, numa idade em que a inconsistência do autoconhecimento trava múltiplos conflitos. Em que ocorre uma das maiores batalhas de integração social, a da aceitação. Aonde as euforias de inesgotáveis desafios coexistem com a paixão, os sonhos e com a impiedosa realidade da rotina e do compromisso. Pois, não parece ser o momento mais consentâneo para fazer uma escolha profissional. Contudo, somos forçados a fazê-lo.

É um considerável privilégio conhecer desde muito cedo a verdadeira vocação para a qual acreditamos ter nascido. O comum será descobri-lo tardiamente e provavelmente, uma grande maioria das pessoas jamais conhecerá as suas autênticas aspirações vocacionais inatas. Confúcio dizia, escolhe o trabalho que ames e não terás que trabalhar um único dia da tua vida. Sabemos quanto difícil é aplicar esta premissa. Desenvolver uma habilidade natural e conciliá-la com o exercício de um trabalho dominante, parece requerer sempre a intervenção divina. A ordem das sociedades contemporâneas é castradora quando se trata de compatibilizar uma predisposição inata e espontânea para o específico exercício de um cargo, com a função desempenhada no circuito económico de uma organização. Obrigámo-nos a pagar as faturas mensais. A sobrevivência compele-nos a escolher um emprego para a qual não estamos aptos e por vezes, nem mesmo o talento para o desempenhar nos é permitido desenvolver. Esta contradição parece ser irrelevante e é aceite como um dos pressupostos das regras em sociedade.

A dinâmica da economia global levou ao abandono de ideais pré-concebidas, como, por exemplo, a de um emprego para sempre. A aspiração de integrarmos uma carreira num banco ou a de funcionário público, tornou-se redutora no sentido da ambição profissional. Advém que as profundas mudanças sociais e económicas geram o aumento do sentimento de insegurança que muito naturalmente se estende à nossa vida pessoal. Se a isso acrescentarmos as inúmeras tensões das rotinas profissionais de uma atividade para qual diariamente nos forçamos a aceitar, os distúrbios para a saúde mental serão relevantes. Será um custo enorme para a sociedade, com nefastas consequências para o ecossistema familiar.

Hoje vivemos mais e com maior qualidade. A esperança média de vida representa cerca de 700,000 horas, 80 anos. O avanço da ciência contribuiu para que a idade média do exercício de uma ocupação tenha crescido significativamente. Em simultâneo, assistimos nos últimos 30 anos ao desperdício do valor e da experiência adquirida por uma população acima dos 65 anos, ainda que continuem a possuir capacidades intelectuais e físicas para ativamente intervir na sociedade. Estamos todos também a aprender como aproveitar esses recursos valiosos.

Consumimos cerca de 20% das nossas vidas (140,000 horas), entre as deslocações e em tempo efetivo de trabalho. Estes números evidenciam a urgência em descobrirmos o verdadeiro sentido para as funções que desempenhamos. Será um contributo positivo para a felicidade. Alguns estudos concluíram que a maior parte dos trabalhadores não encontram um sentido naquilo que fazem. A produtividade e o empenho são proporcionalmente maiores nos indivíduos que encontram a felicidade e um sentido nas tarefas profissionais diárias. O tema da felicidade no trabalho é alvo do estudo da psicologia positiva, da sociologia, uma preocupação dos líderes nas organizações e dos governantes. Procurar o equilíbrio pessoal passa por encontrar a estabilidade emocional no ambiente em que mais tempo passamos. A bipolaridade entre a existência pessoal, familiar e profissional não existe. Existe sim uma complementaridade complexa nestes dois ecossistemas. São uma extensão um do outro com efeitos bilaterais, moldando a forma como produzimos e a capacidade de interagirmos com o mundo. A representatividade do papel do trabalhador na cadeia de produção é deveras importante. Obriga a que a organização responda com uma filosofia humanista que, de modo contrário, as consequências para saúde mental na sociedade serão terríveis.

Não será bastante ser bem compensado pelo desempenho, com um bom salário e com algumas "palmadinhas nas costas"? Ou pertencer a uma organização que em rigor defenda os princípios do
compliance a par de uma filosofia humanista? Então o que tanto nos falta para encontrar a felicidade no trabalho? Estabelecer a harmonia entre o talento e o exercício de uma carreira poderá resumir uma grande parte da natureza do sucesso no trabalho. Gostar de aprender a gostar daquilo que fazemos é um caminho para o bem-estar e para a estabilidade da saúde mental. O conceito, não sendo novo, merece ser desenvolvido e tratado como uma ferramenta importante para atingirmos níveis de eficiência apreciáveis nas equipas. O Desenvolvimento do Talento Pessoal Para Tarefas não Vocacionais (DTPTNV) é um tema que deveria ser central nos pacotes da formação.

Desconstruir o desejo edificado ao longo da vida para exercer a profissão desejada, em muitos casos com elevados custos humanos e económicos de educação, poderá implicar um empenho complexo. Não está na natureza humana a rotina, mas aprendemos a aceitá-la incondicionalmente. Para a validação pessoal e para que sejamos aceites desejamos ter sucesso. Geralmente, a experiência ao construir essa carreira soma tantas deceções que com alguma rapidez, passamos de sonhadores encartados a involuntários no seio das equipas. Tal qual o destino de Sísifo, o trabalho transforma-se numa penosa tarefa, infinitamente repetitiva, como se de uma punição se tratasse.

Ao iniciarmos uma ocupação profissional levamos idealismos filosóficos do pós-adolescência. O primeiro grande desafio é o de ajustar os conceitos e transforma-los em valor para realidade. Encontrar em cada tarefa o prazer da aprendizagem muito para além da função. A consolidação da nossa entidade e a afirmação do papel como elemento determinante na cadeia produtiva da organização. Não podem ser criados muros intransponíveis entre o que somos e desejamos e o que profissionalmente executamos nas organizações. A ausência de permeabilidade leva ao insucesso, à insatisfação pessoal e ao incumprimento dos objetivos na empresa. O Desenvolvimento do Talento Pessoal Para Tarefas Não Vocacionais (DTPTNV) é uma ferramenta fundamental para compreensão da filosofia do trabalho na sociedade e para a plenitude do desempenho das nossas funções. Mudar nem sempre significa a resposta adequada aos nossos problemas e o salto para a profissão de sonho. O custo emocional da mudança não é verdadeiramente equacionado. Nem sempre as vantagens de um pacote salarial apreciável compensam o desvio aos objetivos profissionais ambicionados. O grande atributo da economia são as pessoas. Hoje, mais do que nunca, o sucesso das organizações assenta na plataforma relacional das equipas com os clientes e no modo como transformamos e finalizamos os recursos. Preservar a saúde mental dos trabalhadores e contribuir para a felicidade no trabalho é uma estratégia difícil de implementar, face à diversidade de comportamentos humanos em cada equipa.

Alcançar nas organizações este nível de conhecimento, terá um efeito importante no bem-estar das pessoas e é assegurar um contributo positivo muito importante para a sociedade.
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